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quinta-feira, 8 de junho de 2017

A importância do perdão

Um amigo do Kosovo (1)

Na noite de 17 para 18 de Fevereiro de 2008 manifestou-se uma entidade em sofrimento dizendo-se originária do Kosovo, que nesse mesmo dia havia declarado unilateralmente a independência. Os seus habitantes, na maioria albaneses, de religião muçulmana, comemoravam o evento, o que permitiu desanuviar um pouco o ambiente espiritual e realizar o trabalho que se desenrolou em nosso grupo mediúnico.

Este amigo viu a sua família ser assassinada e a sua casa destruída. O ódio aos responsáveis pelos crimes não o largou, pelo que permaneceu com as sensações de sofrimento que o acompanharam na morte do corpo físico. Tal como noutros casos já relatados, a recusa do perdão agravava o prolongamento da situação.

Como sabemos que nada acontece por acaso, este nosso irmão, certamente, resgatou débitos anteriores.

O esclarecimento que o Espírito Orientador dos trabalhos nos presta no final é precioso. Entre outras coisas, diz: “Muitas reencarnações por fazer, de um e de outro lado, até compreenderem que nada de importante os separa a não ser uma cultura, provisória, porque é terrena, e que o céu dos muçulmanos é o céu dos cristãos, é o céu dos budistas, é o céu dos hinduístas, é o céu dos taoistas, é o céu de todos nós”.

Na realidade, em próximas reencarnações estes personagens voltarão, de novo, a reencontrar-se, para novos reajustes, até atingirem o equilíbrio e harmonia que deverão pautar as relações entre todos. Trocarão, eventualmente, de lugar, pois, o que está aqui em causa são as qualidades morais dos intervenientes – a tolerância mútua, a compreensão, a aceitação da diferença, a amizade sincera, o altruísmo… Desaparecerão o espírito de seita, o dogmatismo fanático, o facciosismo e a intransigência.

O diálogo que a seguir transcrevemos foi travado com um companheiro muçulmano, arreigado na fé islâmica, nos seus dogmas e nas raízes culturais do seu povo.
No final, temos os esclarecimentos preciosos do Espírito Orientador deste trabalho.


O diálogo:

Espírito - Como é que eu vim aqui parar?
Doutrinador - Qual é a tua terra, amigo?
Espírito - Eu sou do Kosovo. Agora é um país! E estava feliz. Andava a festejar na rua.
Doutrinador - Então e o que sucedeu, amigo?
Espírito - Não sei... Ah! Fui à Sérvia, a seguir.
Doutrinador - A seguir aos festejos...?
Espírito - Sim.
Doutrinador - E o que é que lá foste fazer?
Espírito - Fui dar uns bons murros.
Doutrinador - Nas pessoas que lá andavam?
Espírito - Sim. Naqueles assassinos. Não são pessoas. São assassinos.
Doutrinador - E passaste a fronteira?
Espírito - Passei.
Doutrinador - Mas por que razão é que foste, se estavas a comemorar na tua terra?
Espírito - Porque não me esqueço. É um dia feliz, mas é um dia... de grande tristeza para mim...
Doutrinador - Pois é, amigo. E foste para lá para te vingares daqueles que lá se encontravam...
Espírito - Bem merecem. Não tenho feito outra coisa, que é andar de roda deles. Já descobri alguns dos meus assassinos e de toda a minha família (tosse). Não os largo nunca. Só saí para festejar.
Doutrinador -E depois voltaste novamente.
Espírito - E agora não percebo por que é que estou aqui (tosse). E nem percebi nada do que falaram. Nem sei quem é Deus.
Doutrinador - Deus é Alá, como lhe chamas.
Espírito - Ah! É o Deus dos sérvios, dos assassinos.
Doutrinador - O Deus é o mesmo para toda a gente.
Espírito - Não. O meu é Alá.
Doutrinador - Exactamente. É Alá. Nós orámos a Alá.
Espírito - Não. Eu não percebi nada do perdão e dessas coisas, porque quem mata deve morrer também.
Doutrinador - Mas onde é que viste isso escrito, amigo?
Espírito - É assim que nós somos. Nós não fazemos mal. Mas temos que nos vingar. Fazer justiça!
Doutrinador - Com as próprias mãos?
Espírito - Pois se ninguém faz!
Doutrinador - Não acreditas em Alá?
Espírito - E tu acreditarias se vivesses os horrores que nós vivemos? Há visões que nunca desaparecem, para além da morte. A morte é o mínimo. Tudo aquilo que observas com os teus olhos.


(Continua)

Extraído do livro de Eduardo Guerreiro: "Encaminhamento Espiritual - doutrinações" (Ainda não publicado)

Encaminhamento Espiritual - doutrinações

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Livros Espíritas já publicados

Dois livros espíritas têm chamado a atenção dos companheiros de Ideal:





Podem ser adquiridos junto do autor, da Editora ou de livrarias on-line.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Sofrimento e revolta


 No dia 7 de Janeiro de 1995 manifestou-se uma entidade em situação de grande desespero e desorientação. Dir-se-ia que, pelas suas palavras, o sofrimento e a revolta formam um círculo vicioso que o envolve, atormentando-o e do qual não consegue sair. O orgulho e a recusa de um ser Criador impede-o de ser auxiliado. Referindo-se a Deus, diz: “Recuso-O, não O quero, porque não O inventei. Não necessito d’Ele. Aborreço-O porque me criou!” Manifesta-se, posteriormente, o Espírito Orientador que esclarece a situação.


Espírito:

“Sinto-me muito mal. Não são palavras de que preciso. São actos. Quem me tira este peso enorme que se abate sobre mim?! Que me acontece para estar assim? Quem é Deus, que não me ajuda? Somos todos doidos? Não temos leme, apenas palavras e enganos para sobrevivermos? E para quê? Quem escolhe? Como continuarmos? Quem somos? Porque viemos? Donde viemos e para onde vamos? Que fazemos com a Vida? Para quê dormir? Para quê acordar? Devemos dormir para sempre? Pode-se dormir para sempre? Quero descansar a minha mente, quero deixar de pensar, de estar, de ser! Por favor, que a minha voz se cale para sempre! Que o meu cérebro se perca no infinito! Quero o não ser, que a minha pessoa se desfaça no espaço sideral, que eu me transforme em pó, que me confunda com o Universo! Quem me ajuda?!

Sou o sem nome, pois não quero ser, apenas descontar aos poucos para me reduzir a Nada. O Nada é o Absoluto! E se não for? Para onde vamos? Por que temos de ir a algum lado? Quem é tão cruel que nos tenha programado para não parar nunca? Que tortura maior nunca deixar de ser. Ser forçado a seguir em frente sem saber onde aportar. Sem poder decidir não continuar! Simplesmente deixar de ser! Simplesmente morrer!

Sou materialista, não acredito e não quero acreditar! Não vejo necessidade de perpetuar um sofrimento insuportável! Tenho o direito de acabar! Quero decidir sobre a minha pessoa! Ninguém tem o direito moral de pensar por mim! Nem um possível Criador! Quem Lhe pediu que me inventasse? Quem O autorizou a colocar em mim uma mola que me obriga a ser, quando não quero ser um dia. Que tudo se apague, que eu possa, enfim, descansar! Recuso-O, não O quero, porque não O inventei. Não necessito d’Ele. Aborreço-O porque me criou!


Espírito Orientador:

Este nosso irmão peregrina nas trevas do sofrimento e da revolta, que cada vez mais agravam esse sofrimento e essa mesma revolta. Grande desespero lhe invade a alma e quando tentamos erguê-lo e auxiliá-lo a sua recusa é sistemática e a sua luta avassaladora. Recusa o Senhor, sempre se julgou dono do seu próprio Destino e não suporta a existência de um ser superior a si próprio. O orgulho cega as almas que não compreendem a beleza da Vida Eterna porque nunca lhe sentiram os efeitos. Apenas o sofrimento e o desânimo lhes constituem a estrutura espiritual e o seu perispírito se desequilibra e se deforma à medida que aumenta a revolta. Com o tempo conseguirão estes irmãos “apagar-se” temporariamente, dando lugar a formas ovoides (1), que dormitam “eternamente” recusando a luta que salva.

milénios de reencarnações sucessivas permitirão armar estes irmãos de forças suficientes e de renúncia bastante para enfrentarem o Pai, alguém que lhe é Superior, sim, mas também Aquele que os Ama, que os pretende perfeitos e que anseia tê-los junto de Si. Grande sofrimento o destes irmãos. Muita oração se faz necessária para que raios benfazejos de luz possam um dia penetrar nas suas formas distorcidas e alterar a pouco e pouco a sua organização perispíritica.

Não possuímos ouro, mas atentemos no óbolo da viúva. Mais agradável a Deus é uma prece, do que todo o supérfluo da nossa existência. Todos não somos muitos. Que nas nossas preces diárias nos lembremos sempre de incluir estes nossos irmãos revoltados que as religiões tradicionais remeteram aos Infernos. Simbolicamente, essas Esferas de Sofrimento e dor incomensuráveis nada mais são do que nós próprios. Maior sacrifício exige de nós de que se de verdadeiros antros de pavor se tratassem. Sendo exteriores, mais fácil se tornaria a Libertação. Estando cristalizadas no nosso íntimo necessário se faz arrancá-las com as nossas próprias mãos, mudando toda uma estrutura de pensamento e de acção. Tarefa tantas vezes julgada impossível! Daí tanta revolta contra aquele que nos criou porque nos “obriga a evoluir”.

Oremos com Fé e com muito Amor!

As nossas preces formarão cordões que, interligando-se, construirão a melhor arma para estes infelizes lutarem. Dêmos-lhes a ferramenta com que erguerão as suas forças tão debilitadas!

João da Cruz
(1)    Sobre os ‘ovoides’ ver "Evolução em Dois Mundos," cap.XII, André Luiz/Chico Xavier/Waldo Vieira, FEB (Federação Espírita Brasileira).


Extraído do livro “Falando com os Espíritos”, de Eduardo Guerreiro (ainda não publicado)

domingo, 15 de novembro de 2009

A história do ‘Lorny’

Já lá vão 23 ou 24 anos.

Ao Centro Espírita em que trabalhava chegou um caso para o qual, após consulta aos guias espirituais, foi indicado um trabalho de desobsessão, com a presença da pessoa para a qual a consulta havia sido feita.

Não era fácil, dado que a referida pessoa, de cerca de 40 anos de idade, vivia na ilha da Madeira, estando empregada numa empresa de renome. Contudo, ela acedeu a deslocar-se a Portugal continental, na esperança de ver o seu problema resolvido.

A questão que ela havia colocado teria sido considerada de ‘grave’ pelos amigos espirituais. De facto, na vida desta nossa irmã tudo parecia correr mal. Desde o divórcio (embora ambos gostassem um do outro), até aos problemas com o filho, aos problemas no trabalho... esta nossa companheira perguntava, sem saber a razão, o porquê de tanta atrapalhação.

Veio da ilha da Madeira no dia anterior à reunião.

Naquele sábado todos estávamos preparados.


Reunidos na sala habitual e ocupando os lugares do costume, após a concentração, elevação de pensamentos e a oração de abertura, permitiu-se a entrada desta nossa irmã.
Tratava-se de um caso de obsessão de longa duração.

O espírito manifestante revelou que continuava a amar esta nossa amiga. E não admitia que alguém mais se interpusesse entre ele e ela!
Quando se falou no ‘outro’ (naquele com quem esta nossa irmã estava casada) ele revelou que ‘eram cá uns ciúmes!’, que ele não conseguia aguentar. Fez tudo para acabar com o casamento entre eles (o que conseguiu).

Como nada sucede por acaso procurámos saber a razão desta aproximação tão forte entre ele e esta nossa irmã.
Ele revelou que se tinha suicidado em vida anterior ‘por causa dela’.

Certamente as coisas não se teriam passado bem assim. Em última análise, a culpa do suicida reside nele próprio. Contudo, para que nesta existência se tivesse estabelecido uma relação obsessiva, isto é, para que a entidade tivesse tido a possibilidade de se ligar a esta nossa irmã foi porque ela teve a sua parcela de culpa no sucedido, talvez prometendo um amor não concretizado. Não o sabemos.

O facto é que este ‘amor’ obsessivo deste nosso companheiro desencarnado continuava. Daí a sua recomendação a esta nossa amiga antes de ser encaminhado: “Quando chegares a este lado (ao mundo espiritual) não te esqueças de mim: eu sou o ‘Lorny’.

Nunca mais me esqueci do nome. É que a minha mãe, já velhota, tomava um comprimido chamado ‘Lorenin’ antes de se deitar.

Moral da história:

1. As dependências, sejam elas físicas ou psicológicas podem causar-nos atrasos em nossa evolução;

2. Nunca devemos jogar com os sentimentos alheios.

Novembro de 2009
Mário

terça-feira, 13 de novembro de 2007

A Importância do Perdão

Há algum tempo, conversando amenamente com um amigo sobre a vida e os desafios que enfrentamos no dia-a-dia e que põem à prova a nossa serenidade e o aprendizado que fizemos (ou não) dos ensinamentos cristãos ele confessou-me:

“Sabes?! Li aquele teu artigo sobre o irmão Jacob”.

“E o que achaste?” - perguntei eu.

“Há lá uma parte que veio mesmo ao encontro de uma situação pela qual tenho vindo a passar nos últimos tempos”.

A minha curiosidade levou-me logo a indagar do que se tratava. Por que situação é que ele tinha estado a passar e o que é que tinha a ver com o artigo intitulado ‘Voltei’?!

Então ele contou-me:

“Olha, nos últimos tempos, lá no meu local de trabalho, o relacionamento com o chefe andou muito, mas mesmo muito tenso. Ao ponto de eu lhe desejar, em pensamento, as coisas mais horríveis. A mentalização desse desejo trazia-me satisfação. Sentia que se lhe sucedesse o que eu lhe desejava seria feita justiça.

E imaginava-me a fazer essa mesma justiça pelas minhas próprias mãos. Ele, por sua vez, parece que me adivinhava os pensamentos e o seu relacionamento comigo estava cada vez mais crispado.

Andei torturado, amargurado, com desejos e pensamentos de vingança a perseguir-me. Ao ponto de se tornar uma obsessão constante”.

- “E não seria mesmo uma obsessão?”, indaguei eu. “É que os nossos pensamentos atraem entidades afins, que fazem coro connosco, na mesma sintonia”. “E quando o mesmo pensamento nos martela a cabeça constantemente é de desconfiar...”. “Nessa altura devemos fazer uma pausa, pensarmos bem no assunto que nos preocupa e qual a verdadeira razão para essa sensibilidade exagerada em relação ao mesmo”. “Orar e vigiar, como dizia o Mestre...”. E continuei:

- “Mas afinal o que é que fizeste e por que é que o artigo sobre o irmão Jacob veio ao teu encontro?”

Então ele contou-me:

“O irmão Jacob, em determinada altura é perseguido por um grupo violento de padres desencarnados que o ameaçavam. Ele, Jacob, lembrou-se de orar por eles, orar com sinceridade, do fundo do coração, considerando-os seres infelizes. Aí, eles se afastaram e ele, Jacob, começou a irradiar luz, pela primeira vez desde que havia chegado ao mundo espiritual.

Ora eu fiz o mesmo por aquele irmão que nesta vida transitória é o meu chefe e que me tem feito a vida negra. Orei por ele. Orei por ele com sinceridade, até às lágrimas, desejando-lhe o melhor possível do mundo. Afastei ódios e desejos de vingança e vi nele, com toda a sinceridade, repito, um irmão muito infeliz e muito necessitado. E lembrei-me de que nesta vida as coisas não nos sucedem por mero acaso. Inclusivamente solicitei aos amigos da espiritualidade, se Deus o permitisse, um encontro entre mim e ele durante o desprendimento nocturno, já que a animosidade parecia ser de parte a parte.

No dia seguinte ele dirigiu-se a mim com uma expressão aberta e simpática, coisa que já não acontecia há bastante tempo...”

O que este meu amigo fez, afinal, foi algo que consideramos muito lógico, racional, mas por vezes bastante difícil de realizar, dada a dose de orgulho que ainda nos cega: ele colocou em prática a lição do perdão.

Do artigo ‘Voltei’, voltamos nós agora, mais uma vez, a reproduzir o trecho que inspirou este meu amigo à oração e... ao perdão.

Depois de ter frequentado por mais de duzentos dias a “escola da iluminação”, certa noite, de volta ao lar espiritual, sozinho, foi “assaltado por furioso grupo de clérigos desencarnados” que se acercaram dele “violentos e sarcásticos”. Fizeram-lhe lembrar os ataques que ele, impensadamente, havia desferido contra os padres. Cobriram-no de insultos e ameaçaram-no.

Isolando a mente e lembrando-se dos conselhos do Senhor de “orar pelos que nos perseguem”, Jacob, “tocado por sincero desejo de auxiliá-los”, entregou-se à prece, “não como de outras vezes, em que emitia palavras de louvor e súplica com bases menos profundas no sentimento”, mas no sentido de procurar, de facto, “ser útil àquela falange de entidades inconscientes.

... Decorridos alguns minutos, observei que, ao me contemplarem em oração, os circunstantes se afastaram um tanto, embora continuassem a criticar-me de doestos e zombarias”.

A entrega de Jacob foi tão sincera que “sobreveio o imprevisto”:

“Tomado de assombro, verifiquei que branda luz de um roxo carregado brilhava em torno de mim”.

Ao princípio pensou tratar-se de um espírito benfeitor que estaria junto dele. Intrigado, “refugiou-se, de novo, na prece, em silêncio”. Foi então que visualizou Bittencourt Sampaio.

"Jacob" – disse ele (...) não te admires da claridade que te rodeia.

Ela pertence a ti mesmo. Nasce das tuas energias internas, orientadas agora para a Bondade Suprema.

A concentração de amor verdadeiro produz bendita claridade na alma”.

E continuou:

“Ama sem paixão, espera sem angústia, trabalha sem expectativa de recompensa, serve a todos sem perguntar, aprende as lições da vida sem revolta, humilha-te sem ruído ante os desígnio superiores, renuncia aos teus próprios desejos, sem lágrimas tempestuosas, e a vontade justa e compassiva do Pai iluminar-te-á constantemente o coração fraterno e o caminho redentor!”

Mário

6/11/07

Leia aqui os artigos completos sobre o "Irmão Jacob": Parte I

Parte II:

Parte III:

Parte IV:


sábado, 29 de setembro de 2007

PROVA DE FOGO (escolhida na espiritualidade)

Encontrava-me em um departamento de instrução e orientação a espíritos que se preparavam para o retorno à vida corporal.

O instrutor Joel, abnegado Benfeitor daquele núcleo, atendia pacientemente aos inúmeros candidatos à reencarnação.

Diante de um dos seus pupilos, o nobre instrutor falou:

- Augusto, meu filho, rejubilo-me com teus esforços. Nem todos estão preparados para participarem da escolha das próprias provas... No entanto, espírito consciente dos erros do passado, auxiliado pelos amigos desta Casa, sabes que de fato, o escolhido será o melhor para ti.

O ouvinte, atencioso, respondeu:

- Sim, irmão Joel, e agradeço o amparo carinhoso que tenho recebido de todos.

Solícito, o Benfeitor explicou:

- Agradeçamos, antes, à bondade infinita de Deus, que nos permite recomeçar, conforme Jesus nos ensinou: "- Meu Pai não quer a morte do pecador, mas sim que ele se arrependa... "

Lágrimas discretas deslizaram pela face do aprendiz, enquanto o instrutor prosseguia:

- Augusto, confia e prepara-te. Terás muitas lutas e acerbas dificuldades. Aflições inúmeras acompanhar-te-ão a trajetória terrena, entretanto, depois das lutas, depararás com a paz que esperas de há muito... Vai em paz!

Após Augusto se retirar, interessado em colher novas lições, aproximei-me do irmão Joel e indaguei:

- Benfeitor amigo, pelo que pude apreciar nosso companheiro enfrentará verdadeira prova de fogo na existência terrestre?

- Sim, respondeu o instrutor. Ele necessi­tará de muito esforço, renúncia e perseverança.

- Enfrentará a miséria?

- Não, o nosso irmão terá o necessário para viver.

- Sofrerá grave enfermidade?

- Não, ele terá saúde equilibrada.

- Viverá em completa e angustiosa solidão?

- Não, viverá cercado de pessoas.

- Mas, então, que prova ele terá?

O Benfeitor sorriu e concluiu explicando: - Nosso Augusto será médium na Terra…

Hilário Silva (Espírito)

In “Notas de Paz” De Luís António Ferraz

Veja aqui:

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Voltei

IV Parte

Irmão Jacob conhecia a doutrina espírita. Foi seu divulgador nas suas várias vertentes, mas não havia feito luz sobre si próprio. Essa luz conquista-se, não pelas palavras, mas pela acção: devotamento ao próximo, sacrifício de si mesmo, luta contra as más tendências, quais sejam o egoísmo e o orgulho, em suma: exercício activo da caridade.

É o próprio Irmão Jacob que conclui: “Herdeiros de muitos séculos de experiência carnal, é impraticável a definitiva ascensão de um dia para o outro”.

De facto, cada um de nós estagia num determinado patamar evolutivo. Alguns estamos um pouco à frente, pelas conquistas que já realizámos; outros, sendo jovens estamos um pouco mais atrás, em termos evolutivos...

Demonstra infantilidade todo aquele que, a partir do momento em que começa a conhecer a doutrina espírita ou entra num centro espírita e assume ares angelicais, pensa que está no caminho da santificação.

O caminho é longo, áspero, rude... A alteração da forma exterior ou o afastamento da luta do dia a dia, apenas mascaram e/ou adiam a luta evolutiva.

A evolução é um processo interno e só se consegue vencendo as provas que se nos apresentam, por mais desagradáveis que sejam. Quem delas foge, sob que pretexto for (ainda que o argumento seja ‘servir Jesus’, como já ouvimos), falha a oportunidade concedida.

“Os débeis, os sofredores e os enfermos são os meus filhos predilectos e venho salvá-los”, disse Jesus.

Isto não significa que procuremos deliberadamente o sofrimento, o que seria uma contradição.

Significa sim, que nas dificuldades inerentes ao processo evolutivo não estamos sós!

E Bittencourt Sampaio afirma:

“Erramos e acertamos, aprendendo, corrigindo e aprimorando sempre, até à conquista do Supremo Equilíbrio”.

E continua, advertindo Irmão Jacob (e todos nós):

“Não te prendas, pois, às sombras destrutivas do remorso ou da queixa."

Quem terá passado, incólume nos precipícios das paixões humanas, senão o Mestre Amado e Senhor Nosso? Que aprendiz terá alcançado todos os ensinamentos de uma só vez?

(...) despreocupamo-nos de adquirir simplicidade a amor, paciência e renúncia, resignação e esperança (...)

Agrada-nos dispor, aborrece-nos obedecer. Buscamos a autoridade, desdenhamos a disciplina.

(...) Enchemos a Terra de palavras brilhantes, esquecidos de que a vitória no bem é mais concreta naqueles que ouvem o conselho sábio e o aplicam.

É por isto, meu amigo, que chegamos sem lâmpada própria às eminências da vida, incapazes de contemplar o brilho solar pela nossa deficiência de luz”.

Consolando Jacob, Bittencourt aconselha:

Deixa, Jacob, que rujam tempestades do mundo, esquece as recordações violentas do passado, emerge do ‘homem velho’ e caminha para o Alto!

Este desprendimento proposto por Bittencourt, que implica a aceitação plena das leis divinas com tudo o que isso pressupõe: a tolerância, a misericórdia, o perdão incondicional... foi, como veremos, a chave que abriu, posteriormente, as portas da luz a Jacob.

Naquela noite Jacob se perguntava: “Por que avançar no conhecimento cerebral, de alma às escuras?” E decidiu mudar de rumo dado constatar que “não passava de um mendigo espiritual”

Depois de ter frequentado por mais de duzentos dias a “escola da iluminação”, certa noite, de volta ao lar espiritual, sozinho, foi “assaltado por furioso grupo de clérigos desencarnados” que se acercaram dele “violentos e sarcásticos”. Fizeram-lhe lembrar os ataques que ele, impensadamente, havia desferido contra os padres. Cobriram-no de insultos e ameaçaram-no.

Isolando a mente e lembrando-se dos conselhos do Senhor de “orar pelos que nos perseguem”, Jacob, “tocado por sincero desejo de auxiliá-los”, entregou-se à prece, “não como de outras vezes, em que emitia palavras de louvor e súplica com bases menos profundas no sentimento”, mas no sentido de procurar, de facto, “ser útil àquela falange de entidades inconscientes.

... Decorridos alguns minutos, observei que, ao me contemplarem em oração, os circunstantes se afastaram um tanto, embora continuassem a criticar-me de doestos e zombarias”.

A entrega de Jacob foi tão sincera que “sobreveio o imprevisto”:

“Tomado de assombro, verifiquei que branda luz de um roxo carregado brilhava em torno de mim”.

Ao princípio pensou tratar-se de um espírito benfeitor que estaria junto dele. Intrigado, “refugiou-se, de novo, na prece, em silêncio”. Foi então que visualizou Bittencourt Sampaio.

“Jacob" – disse ele (...) não te admires da claridade que te rodeia.

Ela pertence a ti mesmo. Nasce das tuas energias internas, orientadas agora para a Bondade Suprema.

A concentração de amor verdadeiro produz bendita claridade na alma”.

E continuou:

“Ama sem paixão, espera sem angústia, trabalha sem expectativa de recompensa, serve a todos sem perguntar, aprende as lições da vida sem revolta, humilha-te sem ruído ante os desígnio superiores, renuncia aos teus próprios desejos, sem lágrimas tempestuosas, e a vontade justa e compassiva do Pai iluminar-te-á constantemente o coração fraterno e o caminho redentor!”

A lição que Irmão Jacob nos trouxe é, pois, precioso ensinamento para todos nós. Em particular os espíritas, trabalhem ou não em instituições espíritas.

Mário

Voltei

III Parte

Avisado pelo irmão Andrade de que “a morte não nos conduz a tribunais vulgares e sim à própria consciência” foi informado que, “não obstante entregue ao seu próprio julgamento, um amigo de mais alto viria ajudá-lo a recompor o sentimento e o raciocínio”.

Irmão Jacob ficou intrigado por não saber o nome do benfeitor anunciado...

Depois de prolongadas meditações, irmão Jacob alcançou o dia em que seria recebido no grande templo. Foi informado por Andrade que à noite, reencontraria muitos companheiros de trabalho. Mas irmão Jacob estava longe de imaginar que reveria a maior parte dos próprios espíritos com os quais havia convivido pessoalmente nas sessões e serviços realizados na Terra.

No santuário, irmão Jacob sente-se tomado de emoção, sente-se criança de novo e que “alguma coisa lhe entravava a garganta”.

Já no recinto, irmão Andrade o apresenta a “cooperadores do seu trabalho edificante, que prosseguirá mais activo”. Jacob nota “algumas dezenas de companheiros tão obscuros quanto eu mesmo”. Reconheceu muitos deles de encontros e reuniões doutrinárias. Reconheceu diversos médiuns. Todos, tal como ele, lastimavam não terem “usado a aplicação com o mesmo ímpeto com que procuravam conforto no campo do ensinamento”.

Foi informado de que muitos dos presentes da Assembleia daquela noite eram “elementos evangelizados em suas próprias reuniões e preces” e de que a maioria foi trazida de múltiplos lugares, a fim de “juntos recomeçarem o trabalho.”

Após alguns momentos, em silêncio profundo, “Bezerra, nimbado de intensa luz (...) alçou ao Mestre Divino sentida prece”. Ao toque da oração, os amigos iluminados se fizeram mais radiantes e mais belos”. Quando Bezerra terminou (...) na câmara alva surgiu, de repente, uma estrela cujos raios tocavam o chão”.

Perante as intensas vibrações que se faziam sentir, irmão Jacob não suportou a companhia dos iluminados e “afastou-se instintivamente para a faixa a que se recolhiam os companheiros de organização opaca”. Jacob ajoelhou-se, humilde.

“Contemplando a estrela que começava quase imperceptivelmente a tomar a forma humana, Jacob gritou, em pranto, que não era digno daquelas manifestações de apreço e nem merecia a visita divina que principiava a revelar-se”.

Perante a grande luz, fortalecido por sobre-humana coragem confessou todas as suas faltas e salientou todos os seus defeitos, em alta voz, abertamente, sem omitir erro algum”.

O benfeitor anunciado que se materializou a seus olhos era, afinal, “o magnânimo Bittencourt Sampaio, cuja expressão resplandecente constituía o que imagino num ser angélico” (...) “Surpreendido e envergonhado, busquei recuar, mas não consegui. Tentei ajoelhar-me, mas Guillon sustentou-me nos braços”.

E Bittencourt, encaminhando-se para ele, “pronunciando frases que não merecia”, afirmou: “Jacob, fizeste bem, anunciando as próprias faltas neste plenário fraterno!, e continuou:

“A Infinita Sabedoria instala tribunais para julgar aqueles que não a conhecem, porque a ignorância reclama lições, às vezes rudes, dos planos exteriores, mas os filhos do conhecimento santificante condenam ou salvam a si mesmos”.

(continua)

Mário


terça-feira, 14 de agosto de 2007

Voltei

II Parte

Chegado à sua nova moradia espiritual, irmão Jacob, recordando suas actividades doutrinárias, “pretendia rogar trabalho”, aproveitando as suas possibilidades na "acção útil". Ignorava se a sua “pobre tarefa no mundo havia sido aprovada pelos poderes superiores. E no íntimo não desconhecia os seus próprios erros”.

Perguntando ao irmão Andrade pelo julgamento de seus actos, este respondeu que “a morte não nos conduz a tribunais vulgares e sim à própria consciência” e esclareceu que, “não obstante entregue ao seu próprio julgamento, um amigo de mais alto viria ajudá-lo a recompor o sentimento e o raciocínio”.

Irmão Jacob ficou intrigado por não saber o nome do benfeitor anunciado...

Entretanto, irmão Jacob ia reparando no halo de luz que envolvia sua filha, Marta, bem como os traços brilhantes que cercavam Andrade.
E estabelecia comparações consigo, “num demorado auto-exame”.
E reparava que “seu corpo espiritual jazia tão obscuro, quanto o veículo denso de carne”.

Mais tarde, em instituição espírita, nos serviços de doutrinação, “reparou, com mágoa, a diferença que existia entre ele e os abençoados companheiros que o haviam trazido”.
Enquanto que esses companheiros “não eram visíveis aos irmãos ignorantes e perturbados, não obstante as irradiações brilhantes que lhes marcavam a individualidade”, a presença dele, Jacob, era notada.

Certa entidade reconheceu-o e gritou: “aquele ali não é Jacob?”. E olhando-o de alto a baixo, acentuou: “Que é da luz dele?”.
Jacob, sentindo a “opacidade da sua organização espiritual e envergonhado com o incidente, recolhe-se ao silêncio e à inacção...”.

E medita:

“Quantas vezes invocamos a luz nos círculos da fé religiosa! Despreocupados, aconselhamos amigos que a procurem e, em muitas ocasiões, inadvertidamente, receitamo-la para os irmãos que se encontram nas sombras. Através de conversações ociosas, indicamos criaturas que não a possuem e, sempre que tomamos a palavra em público, suplicamo-la (a luz) em altos brados”.

Em sua situação de "entidade parda", irmão Jacob reflecte:
“frequentemente olvidamos a palavra do Senhor que nos recomendou aproveitar as oportunidades da experiência humana, na iluminação de nós mesmos, através do devotamento ao próximo”.

Mas, irmão Jacob não havia devotado toda a sua vida à doutrina espírita e ao movimento espírita? Porquê, então, a sua ausência de luz? É ele próprio que responde:

“O problema avultava em minhas cogitações (...) Eu não providenciara luz para mim mesmo. Conduzira muitos desencarnados à fonte sublime das claridades evangélicas, mas esquecera as próprias necessidades. Doutrinara muita gente, ou pretendia haver doutrinado e, em todo o meu movimento verbal da pregação cristã, salientara o imperativo da luz para os corações humanos. Contudo, agora, que participava de uma sociedade espiritual, reconhecia a opacidade da minha alma. Mantinha-se-me o perispírito no mesmo aspecto em que se caracterizava na experiência física”.

Estas reflexões de irmão Jacob, decorrentes das constatações que o haviam seguido logo desde o início da jornada além-túmulo, fazem emergir de dentro de si a humildade para rogar:
“Oh! Senhor, porque não fazemos bastante silêncio, dentro de nós, para ouvir-te os ensinos, enquanto nos demoramos nos atritos do mundo?”

Da expectativa e da esperança, este irmão dedicado à actividade doutrinária no campo espírita é conduzido pelos próprios meios, à interrogação e constatação da falta de luz em si próprio, lamentando não ter feito suficiente silêncio dentro de si... Pensando inicialmente no julgamento de seus actos, como se em vulgares tribunais terrenos, é informado que “a morte (...) conduz (...) à própria consciência”...
(continua)
Mário

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Voltei

I Parte

Peço desculpa à amiga Joana e a todos os que leram os meus primeiros ‘posts’ pela minha ausência demasiado prolongada.
Voltei, pensando em todos os companheiros que actuam no campo espírita realizando as mais diversas tarefas: divulgação da doutrina, tarefas assistenciais a encarnados e desencarnados, estudo doutrinário...

Voltei, para abordar agora um tema completamente diferente do anterior.E isto porque reli uma mensagem psicografada recebida há mais de dez anos.


Diz assim:
“Nunca procures aparecer. Lembra que os que se encontram em evidência estão sendo analisados. Será que estás em condição de só oferecer bons exemplos?”
OCAJ

Ao mostrar esta mensagem a pessoa amiga, ela chamou-me a atenção para o nome do espírito que assinou esta mensagem: OCAJ. Para mim totalmente desconhecido, mas, de facto, se visto o nome ao contrário, podemos ler JACO ou, talvez JACOB. E lembrei-me do irmão Jacob.
Voltei é o título de um livro psicografado por Chico Xavier em 1948, ditado pelo espírito do irmão Jacob.
O conteúdo desse livro constitui uma séria advertência para todos aqueles que militam na seara espírita.

Irmão Jacob foi presidente de uma instituição espírita brasileira da mais alta relevância.

Foi divulgador da doutrina a nível nacional (no Brasil). Participou em reuniões mediúnicas de elevada responsabilidade (incluindo reuniões de materialização).

Deu passes em moradores de bairros pobres (ou favelas).

Conviveu com grandes nomes do espiritismo brasileiro como Bezerra de Menezes, Guillon, Batuíra, Inácio Bittencourt, Leopoldo Cirne, Bittencourt Sampaio...

Mas por que razão ao chegar ao mundo espiritual não apresentava uma luzinha no plexo solar?

As dúvidas quanto à sua posição espiritual começaram desde logo a assaltar o irmão Jacob quando, no início da viagem para colónia espiritual, realçou a presença, no grupo de entidades recém-desencarnadas, de “respeitável senhora” que, de todos, “era a única de cujo peito irradiava luz” .
E informa:
“a evidente superioridade que a distanciava de nós parecia afligi-la, tal a modéstia que lhe transparecia das atitudes”.
Confessa:
“reparando aquela mulher de maneiras simples e afáveis, emitindo luminosidade sublime, inopinado sentimento de inveja me assaltou o coração.
E perguntou-se sobre “os sacrifícios a que fora, por certo, conduzida a bem-aventurada criatura, que” o “impressionava tão fortemente, para conquistar o precioso atributo”.
Aquela “modesta professora de bairro distante” foi posteriormente recebida por uma assembleia de meninos, entoando cânticos e tratando-a por mamã (mamãe) e informada que “outra escola, muito mais linda, a esperava num parque celestial”.

Mas por que razão ele, Jacob, que tinha dado a vida pela doutrina, durante décadas, não apresentava uma única réstia de luminosidade?
(Continua)
Mário

terça-feira, 26 de junho de 2007

Renascemos e Renascemos...até saldar a última dívida!


No Elevador


Feliciano e Osório eram vizinhos que se viam muito pouco. E por motivos desconhecidos, quando se cumprimentavam havia sempre um disfarçado ar de antipatia.

Numa certa manhã, suas crianças que jogavam à bola nas proximidades, desentenderam-se e correram para casa com choros e reclamações.
Imediatamente os pais saíram e, em plena via pública, entraram em hostilizante discussão. Não fosse a intervenção de terceiros, Feliciano e Osório teriam causado escândalo ainda maior.
A contenda teve fim, enquanto um dizia:
- Desaparece de minha vista e nunca mais voltes a falar comigo. ...
E o outro redarguiu:
- Infeliz sou eu em ser teu vizinho!

Tudo voltou à calma quando ambos se recolheram.

À tarde, porém, vamos encontrar o nosso amigo Feliciano fazendo compras numa grande avenida.
Momentos depois, sai de um estabelecimento, conduzindo nas mãos pequeno pacote.

Apressado e meio aturdido, penetra a portaria de um edifí­cio, e quase instintivamente entra num elevador. Imediata­mente aciona o botão a fim de subir ao 102º andar. Suspira fun­do, enquanto o aparelho descola; mas, ao volver os olhos para o lado, leva um susto... Tinha como único companheiro naquela cápsula, um homem que não era outro senão Osório, o seu vi­zinho.

É inútil tentar descrever o estado de espírito que dominou os dois em tão aflitiva circunstância.
Ambos pensaram logo em escapar.

Osório precipitadamente aciona uma tecla, tentando fugir. Queriam afastar-se abruptamente, mas, nesse momento, por incrível que pareça, a luz se apaga e o elevador pára, imó­vel. Faltou energia elétrica.

A situação se agravou. Os dois pareciam pilhas a ponto de explodir.

Mas, a prisão daqueles instantes fê-los mansos, e come­çaram a trocar palavras em grotescos monossílabos.

O tempo foi passando...

Forçados pelo imprevisto, aí mesmo apaziguaram-se, re­consideraram o incidente da manhã e passaram a conversar sobre futebol. Ambos torciam pela mesma equipa.
Meia hora depois o aparelho volta a funcionar.

E na saída os dois, aliviados, despedem-se com um co­movente abraço, e tornam-se amigos. . .



A família, ante a Lei das vidas sucessivas, é como aquele elevador: encarrega-se de reunir almas inimigas, sob o mesmo tecto, até que haja a necessária RECONCILIAÇÃO.

In Páginas do Quotidiano Hilário Silva

segunda-feira, 25 de junho de 2007

A Comunicação através do sonho

Diálogo em Casa

Era como se tudo houvesse desembocado num grande caos - reflectia o Dr. Luciano de Sá, ante o terrível impacto so­frido com a inesperada morte do filho.
Germano servira o Exército havia pouco tempo. Filho úni­co, sempre teve nos pais dispensadores pródigos que tudo fa­ziam para ver o jovem crescer feliz.
Nos últimos tempos, porém, Germano mostrava-se inex­plicavelmente rebelde e avesso ao ambiente doméstico.
Um tanto saturado de prazeres que sempre lhe foram fá­ceis, o moço, inquieto, parecia tomar caminhos diferentes.
Isso é fase - dizia a mãe, D. Albertina - com o tempo tudo passa. É o período da emancipação que todos devemos res­peitar.
Filho e genitores, apesar de residirem no mesmo lar, vi­viam em situações diferentes e até desassociadas. Os laços de aproximação existentes eram, em verdade, muito fracos.

Na medida em que passavam os meses, o jovem torna­va-se mais revoltado, até que seus pais vieram a receber a vi­sita de dois policiais que os informaram sobre o acidente.
Germano, passeando de moto, acabara de ser atropelado por um caminhão, vindo a morrer minutos depois.
Agora a casa estava vazia. E os dois corações ali exis­tentes, saturados de angústia.
Trinta dias depois, Dr. Luciano, que acreditava na eficácia da prece, rogava aos Céus, antes de dormir, a bênção de um consolo maior.
Dormiu serenamente e, momentos após haver conciliado o sono, passou a ter sonho muito significativo: um amigo não identificado, o conduziu a um hospital e lá surpreendeu-se com a presença do filho querido. Estava em delicado tratamento e já gozava de sensível recuperação. Os dois não puderam conversar, mas trocaram enigmático e profundo olhar.
E a experiência prosseguia...
Dr. Luciano, meio atónito, naquele instante, foi convidado a ouvir algumas palavras de abnegado Mentor. E, sentando-se, ouviu o seguinte:
- Seu filho não morreu. Teria morrido se continuasse na Terra. Dessa forma, sua consciência teria sido petrificada no erro. Portanto, ele foi salvo. Salvo pela bênção da morte. Não diga jamais que a sua casa está vazia, porque vazia ela sempre esteve desde que não ofereceu lugar ao coração de Germano. Todo ambiente humano sem diálogo é hostil. Seu filho estava tentando escapar a essa situação. Começou a degenerar-se, revivendo quedas de outras vidas, e quando sentimos que es­tava mergulhando a alma no submundo do tóxico, recorremos à misericórdia de Deus e o trouxemos para cá. Foi uma con­cessão feita com base em méritos que o nosso Germano traz de outras existências. Seria muito triste o seu caminho pela vi­da, não fosse essa providência. Portanto, meu irmão, dê gra­ças a Deus por tudo, assuma o compromisso de aprender a ser pai e não se esqueça que o diálogo afectivo é base de harmonia para o lar.

Assim que o Dr. Luciano acabava de ouvir a palavra enér­gica e esclarecedora daquele que continuava sendo o anjo guardião de seu filho, sentiu o sonho se desfazer e, em segui­da, despertou no corpo, trémulo e pensativo...
In Páginas do Quotidiano Hilário Silva